A magia de espaços como este, é puder abrir o baú e partilhar pequenas pérolas que lá se encontram… Hoje, reavivo a memória com um texto que escrevi, em duas partes, há uns anos atrás… Se me perguntarem o dia, o mês, ou mesmo, o ano exato, não serei capaz de vos responder.

Decidi não editar o texto, não que não tenha gosto em o fazer, mas prefiro guardar a inocência do mesmo talvez como a inocência é o tema que deu vida ao mesmo.

Ambos cresceram numa aldeia esquecida em plenas montanhas frias cobertas sob um manto espesso de neve… Ela era a sua companheira de infância, de longas horas de brincadeira.

Tinham a mesma idade. Aos 3 anos entraram juntos para o jardim-de-infância. Juntos rabiscaram as primeiras folhas de papel, juntos pintaram as mãos de todas as cores que disponham ao seu dispor.

Aos 6, a escola primária foi o destino de ambos. Foram companheiros de carteira, durante 4 anos. Juntos aprenderam a ler, a escrever, a efectuar contas de “mais”, “menos”, “vezes” e “dividir”. Aprenderam a tabuada, a “prova dos nove”, entre outros. No recreio, eram inseparáveis. Ele juntava-se as meninas, porque não era capaz de estar longe dela. Ela juntava-se aos meninos, porque não conseguia estar sem ele.

“Ele e ela, são namorados” ouviam os colega gracejando da união que nos envolvia. Ela, enrubescia e entristecia. Partia numa corrida desenfreada e só parava na caixa de areia coberta de neve, no canto mais isolado da escola. Chorava.

Ele, inocentemente, corria em seu socorro e consolava-a. “Não ligues ao que eles dizem” dizia ele. Ela continuava a chorar.

“Vou dizer a professora” e partiu, deixando-a ali sozinha.

“Senhora professora, “Ela” está ali a chorar sozinha”. Ele e a professora, partiam em auxílio d’ Ela. E as palavras mágicas provenientes da boca da professora eram remédio santo. Ela, recuperava a alegria e ia, de novo, brincar, para felicidade d’ Ele. Ela juntava-se as amigas, Ele ia jogar a bola com os amigos.

No fim do dia, iam juntos para casa, como sempre, inseparáveis.

Inocentes e sem se aperceberam, criaram laços que dificilmente o tempo iria destruir, construíram uma amizade verdadeira, sincera, pura e acima de todo duradoura, capaz de resistir a tudo e a todos.

Nova mudança de escola e mais uma vez o destino, juntou-os. A escola nova, era diferente de tudo o que tinham experimentado até então.

Ela, começou a ganhar formas femininas, o seu longo cabelo loiro ganhou um brilho diferente. Daí a cobiça masculina foi um ápice.

Ele ganhou ciúmes. Os comentários sobre ela, e sobre a beleza d’ Ela eram capazes mais frequentes e Ele fazia ouvidos mudos, ignorando o que ouvia, ou tentando.

Estava habituado a Ela, ser só dele. Estava habituado a não ter que a dividir com mais ninguém…

“Um dia vais ser minha, só minha e de mais ninguém” balbuciou Ele entre soluços de choro…