Decidi começar este espaço de partilha com uma história ligada à visita da “aldeia” de Yaax-Hal, situada na província mexicana de Valladolid. Este testemunho relata a inocência de um menino com quem me cruzei nesta aldeia mexicana, onde os seus habitantes são descendentes da antiga civilização Maia.

Embora não saiba o seu verdadeiro nome, decidi chamar-lhe de “Kinich” que, na linguagem Maia, significa “o Rosto do Sol”, pois, o seu sorriso irradiava uma alegria natural da inocência da idade, tal como demonstram as fotos aqui partilhadas. Cruzamos olhares, pela primeira vez, na entrada de uma pequena habitação. Com a camisola suja, as calças rasgadas nos joelhos, fruto da irreverencia da idade e os pés descalços, recebeu-nos timidamente. Aos poucos, ganhando confiança, libertou-se e acompanhou-nos durante a visita, que se revelou uma experiência arrebatadora.

Até aqui, a sua história não seria diferente de muitas outras, de outros meninos que vivem naquela aldeia. O que o tornou diferente, foi, precisamente o objeto que ele escolhera para o “brinquedo”, com o qual passou, e não largou, todo o tempo que lá estive. Na nossa sociedade, dita consumista, as meninas estão habituadas as Barbies e as suas casas, os vestidos princesas… os meninos, os carros, os Legos, entre outros… O brinquedo de “Kinich” era simplesmente um pneu. Certamente, um pneu de uma mota que alguém deitou fora e ele, simplesmente, reconverteu no seu hobby e se tornou, o seu “amigo” inseparável que levava para onde quer que fosse…

Confesso que fiquei comovido pela naturalidade e pela simplicidade com que “Kinich” encarava aquela realidade de brincar com um pneu que, nos dias de hoje, parecia uma realidade quase inexistente. No fim da visita, e com todas as pessoas a entrar nos respectivos transportes, partiu… Com os seus pés descalços, lançou o seu “amigo” e começou a correr ao seu lado… Aos poucos, e vendo que o pneu começava a perder velocidade, empurrava-o mais um pouco… e assim sucessivamente, desapareceu no horizonte e regressou a casa…

Fui embora com aquele momento na cabeça e ele certamente que, nos dias de hoje, continua com o seu inseparável amigo e vive, com os poucos recursos que a sua família tem, a sua infância com aquela inocência que me brindou qual o conheci. A sua história, por mais insignificante possa ainda ser, talvez por ser tão novo ou tão inocente, ensinamos uma grande lição, que a vida é muito mais do que podemos comprar mas sim, o quão feliz podemos ser com o pouco que temos. E ele era, ou é, verdadeiramente feliz assim…

Certamente que ele já me esqueceu, mas eu, certamente, não me vou esquecer dele!